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Alienação parental e consequências jurídicas

Dra. Eduarda S. GhisioPublicado em 21 de abril de 2026Atualizado em 26 de setembro de 20267 min de leitura
Alienação parental e consequências jurídicas

Introdução

A alienação parental é uma das situações mais delicadas do direito de família. Ela ocorre quando um genitor, os avós ou quem detém a guarda interfere na formação psicológica da criança ou do adolescente para que ele repudie o outro genitor, prejudicando o vínculo entre eles. Ainda que tratado por muitos como uma simples desavença entre adultos, o tema produz danos profundos ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Reconhecer a alienação parental e conhecer as consequências previstas em lei é essencial para proteger o menor e assegurar sua convivência saudável com ambos os genitores.

Base legal

A matéria é regida pela Lei 12.318/2010. O artigo 2º define como ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente, promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para que repudie genitor ou cause prejuízo ao vínculo com ele.

O parágrafo único desse artigo apresenta um rol exemplificativo de condutas:

  • realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou da maternidade;
  • dificultar o exercício da autoridade parental;
  • dificultar o contato da criança ou do adolescente com o genitor;
  • dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;
  • omitir deliberadamente do genitor informações pessoais relevantes sobre a criança, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;
  • apresentar falsa denúncia contra o genitor, contra seus familiares ou contra os avós, para obstar ou dificultar a convivência;
  • mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando dificultar a convivência.

O artigo 3º esclarece que a prática de alienação parental fere o direito fundamental da criança e do adolescente à convivência familiar saudável, prejudica o afeto nas relações com o genitor e com o grupo familiar, constitui abuso moral e representa descumprimento dos deveres inerentes à autoridade parental, à tutela ou à guarda.

A esses dispositivos somam-se o Estatuto da Criança e do Adolescente, que assegura o direito à convivência familiar e comunitária, e o artigo 227 da Constituição Federal, que impõe a proteção integral com absoluta prioridade. A guarda compartilhada, por manter ambos os genitores presentes na vida do filho, costuma ser apontada como instrumento de prevenção da alienação parental.

Como identificar a alienação parental

A identificação nem sempre é simples, porque o fenômeno se instala de forma gradual e muitas vezes sutil. Entre os sinais mais comuns estão a desqualificação constante do outro genitor diante da criança, a criação de obstáculos para que as visitas aconteçam, o controle excessivo das comunicações e a imposição de que o filho escolha um dos lados.

Também merecem atenção a mudança de endereço sem comunicação ao outro genitor e à escola, a apresentação de denúncias falsas e o induzimento da criança a mentir ou a rejeitar o genitor. Em casos mais graves, o menor passa a repetir frases do alienador e demonstra hostilidade sem motivo aparente.

É fundamental não confundir alienação parental com a simples resistência da criança a um regime de convivência; por isso, a avaliação técnica é tão importante.

Consequências jurídicas para o alienador

A lei prevê medidas graduais, sempre orientadas pela proteção da criança. Havendo indício da prática, o artigo 4º determina que o processo tenha tramitação prioritária e autoriza o juiz, ouvido o Ministério Público, a adotar com urgência as medidas provisórias necessárias para preservar a integridade psicológica da criança e assegurar a convivência ou viabilizar a reaproximação.

O artigo 6º reúne as sanções que podem ser aplicadas de forma cumulativa ou não, conforme a gravidade do caso:

  • declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador;
  • ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado;
  • estipular multa ao alienador;
  • determinar acompanhamento psicológico ou biopsicossocial;
  • determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou a sua inversão;
  • determinar a fixação cautelar do domicílio da criança ou do adolescente.

O parágrafo do mesmo artigo permite ao juiz inverter a obrigação de levar e de retirar a criança da residência do genitor em caso de mudança abusiva de endereço ou obstrução à convivência.

Além das medidas da lei, a conduta pode gerar pedidos de indenização por danos morais, conforme o artigo 7º da Lei 12.318/2010 e as regras gerais da responsabilidade civil do Código Civil.

Como fazer a prova

Para comprovar a alienação parental em juízo, é fundamental reunir elementos que demonstrem a conduta do alienador. Mensagens, e-mails, publicações em redes sociais, gravações lícitas e o relato de testemunhas são instrumentos úteis.

O juiz pode determinar perícia psicológica ou biopsicossocial, prevista no artigo 5º da lei. O laudo pericial se baseia em ampla avaliação, com entrevistas, exame de documentos, histórico do relacionamento e análise de como a criança se manifesta sobre as acusações. A lei prevê o prazo de 90 dias para a apresentação do laudo, prorrogável por autorização judicial fundamentada.

Passo a passo prático

  • Documente as situações: preserve mensagens, e-mails, fotografias, gravações lícitas e anotações com datas e horários.
  • Registre as tentativas de contato e as recusas injustificadas, inclusive a negativa de informação sobre a escola e sobre a saúde da criança.
  • Procure um advogado especializado em direito de família para avaliar o caso e definir a estratégia.
  • Verifique se o pedido será feito em ação autônoma ou de forma incidental em processo de guarda ou de visitas já em curso.
  • Requeira, se necessário, as medidas provisórias de urgência e a designação de perícia psicológica ou biopsicossocial.
  • Busque acompanhamento psicológico para a criança, de modo a preservar seu bem-estar durante o litígio.
  • Mantenha postura cooperativa com a Justiça e evite responder às provocações do alienador com hostilidade.

Prazos reais

Não há prazo específico para ajuizar a ação, pois a lei não fixa termo para a proteção do vínculo familiar. O que existe é o dever de agir com urgência: assim que houver indício da prática, a lei determina tramitação prioritária ao processo.

A perícia tem prazo de 90 dias para a entrega do laudo, prorrogável por decisão judicial fundamentada. Os recursos contra as decisões, em regra, seguem o prazo geral de 15 dias previsto no Código de Processo Civil.

Erros comuns

  • Tratar a alienação parental como um conflito menor entre adultos e adiar a busca por ajuda.
  • Reagir com hostilidade e agressividade, o que prejudica a própria imagem do genitor alienado no processo.
  • Usar a criança como intermediária das mensagens e dos conflitos entre os pais.
  • Deixar de documentar as condutas, dificultando a produção da prova em juízo.

Quando procurar um advogado

Sempre que houver indícios de que o convívio entre a criança e um dos genitores está sendo sabotado, a orientação jurídica é indispensável. Também é recomendável procurar auxílio diante de recusa injustificada de visitas, desqualificação pública do outro genitor ou qualquer medida que prejudique o vínculo afetivo.

O atendimento pode ser feito de forma presencial ou online, por videoconferência e aplicativos de mensagem, o que amplia o acesso de quem mora em outra cidade ou tem pouco tempo disponível. Em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a Dra. Eduarda S. Ghisio atende presencialmente e à distância. Após a análise do caso, o profissional define a estratégia mais adequada, sempre com foco no interesse superior da criança.

Conclusão

A alienação parental é uma forma de violência psicológica que atinge diretamente o desenvolvimento de crianças e adolescentes. A Lei 12.318/2010 oferece instrumentos eficazes para coibir a prática e proteger o vínculo familiar, desde a advertência e a ampliação da convivência até a inversão da guarda e a multa. Identificar os sinais cedo e buscar orientação jurídica qualificada é o caminho mais seguro para resguardar o bem-estar do menor e preservar a convivência com ambos os genitores.

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